Hidrogood News: Tripes em hidroponia, uma praga endêmica

Por: Dr. Gláucio da Cruz Genuncio, especialista em Nutrição Mineral de plantas.

Verões após verões são marcados pela presença irritante desta praga em quase todos os produtores hidropônicos do Brasil, causando prejuízos significativos, seja pelo dano físico do inseto, seja pala transmissão do vírus causador do “vira cabeça” em alface.

Esta constatação da ocorrência endêmica consolida-se em locais cujas temperaturas são elevadas em quase todos os meses do ano, tais como Cuiabá e Teresina.

Destaca-se que endemia por si significa uma praga ou doença frequente em uma região. Porém, podemos contextualizar endemia como sendo uma praga frequente em um sistema de cultivo, que no caso é o sistema de cultivo hidropônico, tendo sua ocorrência regida por fatores climáticos preponderantes, tais como temperaturas elevadas e umidade relativa próxima aos 60% (UR%). Por outro lado, esta praga se adaptou tão bem ao sistema hidropônico, que já pude constatar a ocorrência dela mesmo em regiões frias e na época do inverno.

Em função disto, este Hidrogood News tem por objetivo alertar aos produtores da importância do conhecimento desta praga e das possíveis formas de manejo e controle.

Assim, o primeiro passo a ser destacado é conhecer o inimigo que nos assombra: assim, estes insetos têm sua origem etimológica do grego thripos, que significa “verme da madeira”, pois podem viver na madeira morta e se alimentam de fungos. Esta informação é muito importante pois traça um paralelo quanto a dificuldade observada para o controle de tripes quando os pés das bancadas são constituídos de madeira, muitas vezes úmidos e com rachaduras e com algas, os quais podem favorecer significativamente a sobrevivência e proliferação desta praga.

Outro fator a se destacar é que todas as “6160” espécies de tripes estão distribuídas pelos cinco continentes no mundo (o que a torna uma praga cosmopolita). Por outro lado, no Brasil foram identificados cerca de 600, aproximadamente, 10% das espécies conhecidas no mundo, sendo uma quantidade restrita fitófagos (que causam danos as plantas) como a alface. Ressalta-se que somente quatorze das seis mil espécies de tripes são reconhecidamente transmissoras de viroses.

Foto: AgriPorticus

Para a identificação, os adultos apresentam corpo alongado e delgado, com o tamanho variando de 0,5 a 15mm, isto é, muito pequenos, e a coloração de amarelada a negra. Para identificarmos necessitamos, por vezes, de uma lupa. Podem ser alados (isso mesmo, eles podem voar) ou ápteros (sem asas).

São insetos classificados como picador-sugador assimétrico, sendo que o ato de raspar reduz a qualidade comercial da folha, a partir de sintomas como: Distorção, prateamento, bronzeamento, morte, seca e abscisão de tecidos vegetais. O fato de picar é fator preponderante para a transmissão do vírus. A maioria das espécies de tripes é bissexual com predomínio de fêmeas. Em muitas espécies a presença de machos é rara ou inexistente e a reprodução é parcial ou totalmente partenogenética (ou seja, não necessita de reprodução sexuada para gerar novos insetos) e isto explica o aumento populacional repentino em uma hidroponia.

Os ovos de tripes são fixados nas folhas (oviposição nos tecidos) e eclodem em torno de três a quatro dias, com o surgimento de “larvas” na coloração branca ou translúcida neste período e, logo após, saem caminhando ativamente e passam a se alimentar.

Cabe aqui uma consideração importante: O tripes tem uma fase de seu ciclo reprodutivo em um ambiente mais protegido e úmido (no solo ou nas frestas de madeira, por exemplo), o que torna o seu controle muito mais difícil e criterioso. Assim, o produtor deve atentar para isto. Muitos produtores têm direcionado esforços para a quebra do ciclo produtivo, com o uso de ráfia de solo, de materiais que substituam a madeira para a construção das bancadas com a capina (mecânica ou química) embaixo da bancada, como o uso de cal virgem e com a aplicação de defensivos nestes ambientes.

Existe uma recomendação de uso de armadilhas azuis nos pés da bancada, assim como graxa entomológica, pois alguns defendem que o tripes após a esta fase do solo subirá pela bancada e retornará o seu ciclo de potencias e efetivos danos às plantas.

Algo importante que devemos ressaltar aqui é a constatação da proliferação de tripes em hidroponia que adotaram como premissa a compra de mudas de viveiros, assim, o acompanhamento da qualidade fitossanitária destas mudas é de fundamental importância.

Com isso, percebam que o controle de tripes não é somente o químico ou o biológico (que inclusive trataremos no próximo Hidrogood News), mas sim o monitoramento efetivo desta praga, com cuidados relativos a limpeza da estuda, barreiras físicas (ráfia de solo) e químicas (defensivos no solo), além do uso de matérias para a construção de bancadas que não possibilitem a proliferação desta praga que vem tirando o sono dos produtores no Brasil, principalmente em épocas que são as mais rentáveis para a comercialização de produtos hidropônicos.

Espero que apreciem este Hidrogood News e até a próxima edição!

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Fonte das imagens utilizadas neste artigo: AgriPorticus

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